Numa faculdade de jornalismo nós temos muitas discussões sobre o futuro da nossa área, o impacto que a internet vem tendo na mídia, como fica o internauta nas notícias com tantas tecnologias participativas aparecendo. As redes sociais criaram uma nova teia de compartilhamento de informação e ninguém sabe muito bem onde isso tudo vai dar. Mas alguns jornais já vêm se preparando e montando sua própria base de ação num terreno que é tudo, menos estável.

No último dia 29, o The Guardian resolveu fazer uma brincadeira, considerando todas as transformações que a internet trouxe para a sociedade, incluindo o jornalismo. Como eles mesmos explicam:

Esta propaganda para o jornalismo aberto do The Guardian, publicado pela primeira vez em 29 de fevereiro de 2012, imagina como podemos cobrir a história dos Três Porquinhos na versão impressa e online. Acompanhe a história da manchete do jornal da primeira página, através de uma discussão de mídia social e, finalmente, a uma conclusão inesperada.

O vídeo é genial. Começa com a prisão dos três porquinhos, acusados de matar o lobo mau, fato que é logo seguido por uma comoção popular. Uma mulher escreve no twitter: “isto não está certo, os três porquinhos são as vítimas!”, o que desencadeia uma série de respostas de internautas discutindo o assunto. “O lobo destruiu duas casas, ele mereceu!”, “os porquinhos tem todo o direito de defender sua propriedade”. Alguém contra-argumenta: “mas os porquinhos foram longe demais”. Surgem as enquetes: “Matar alguém que invadiu sua casa é justificável?”. E concomitantemente à discussão, a perícia policial segue suas próprias investigações.

E então alguém joga a bomba: o lobo não poderia ter cometido o crime de destruir duas casas, ele tinha asma. Um vídeo gravado em um ônibus o mostra utilizando uma bombinha, especialistas fazem gráficos na internet mostrando como mesmo um lobo saudável não conseguiria soprar duas casas ao chão. As pessoas começam a escolher lados. A polícia anuncia que os porquinhos mataram o lobo para cobrir um golpe de seguros, pois estavam com dificuldades financeiras. Os internautas continuam a participar do caso, contam suas histórias, perguntam como as coisas chegaram a esse ponto. E o final possível é um só: um conflito real, quase uma revolução.

O vídeo é, como a própria explicação do The Guardian diz, uma propaganda, uma brincadeira. Mas com tudo o que vem sofrendo modificações nos últimos anos pela velocidade da comunicação pelas tecnologias, é uma brincadeira muito bem colocada. É fácil de perceber isso por exemplos até mesmo brasileiros. Dez dias atrás, Gabriella Yukari Nichimura, de 14 anos, morreu em um acidente no Hopi Hari, como vocês devem ter acompanhado. As primeiras suspeitas da polícia caíram em cima de falhas no sistema do brinquedo ou na manutenção do parque. Descartada essa possibilidade, começaram a averiguar se a cadeira já havia saído destravada do chão, devido a uma falha humana. Uma semana depois do acidente, depois de toda a perícia feita, uma foto divulgada pela família na internet revelou que a cadeira em que a adolescente estava sentada era outra, e diversas pessoas que estavam no parque naquele dia começaram a publicar suas próprias fotos mostrando onde a adolescente estava sentada, ou o fato da cadeira estar vazia nos turnos anteriores ao do acidente. O detalhe fez com a polícia fosse obrigada a rever suas observações.

Nem preciso me alongar muito sobre o caso do Hopi Hari, a semelhança entre ele e a brincadeira do jornal britânico, ainda que em menores proporções, é completamente visível. É o passo que o The Guardian está arriscando tomar na direção do incerto futuro jornalístico; um passo num caminho diferente do que está sendo feito por outros jornais, como o estadunidense New York Times. Mas então, o que é esse jornalismo aberto que eles mencionam?

No site do periódico, o editor chefe Alan Rusbridger, explica o novo conceito:

“Estamos desenvolvendo uma idéia de jornal que é muito diferente. Nossa abordagem reconhece a importância de colocar um jornal no centro do campo aberto da eco-estrutura de informações para que você possa aproveitar vozes diferentes e apontar para uma variedade de outras fontes. Estamos colhendo os frutos para sair da mentalidade antiga de jornalismo e da compreensão de que podemos aproveitar, curar, agregar e reportar, o que é um modelo distributivo de jornalismo que tem uma riqueza e diversidade de conteúdo”.

Rusbridger comenta como a abertura na web é um ponto crítico para trazer a transparência nos assuntos mundiais. O The Guardian está nesta briga já há algum tempo, tendo seu ápice provavelmente com os casos revelados pela sua parceria com o Wikileaks e os grampos telefônicos do The News of the World, além da cobertura feita sobre a Primavera Árabe. O jornalismo aberto defendido pelo The Guardian então é isso, um jornalismo participativo, onde a notícia não corre numa única mão, mas em todas as estradas; é uma teia de compartilhamento com vários centros, onde todos podem acrescentar seus próprios fatos. É dificil saber se essa teia vingará, mas algumas pessoas já resolveram fazer suas apostas.

“Existem essas duas forças na sociedade”, diz Rusbridger. “Para mim, é indiscutível que o melhor lado para estar jornalisticamente é o aberto”.

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Sobre yolanda

Jornalista, estudante de Ciências Sociais, viciada em tecnologia e novas mídias.

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