Não sei se você que está lendo este post está ciente, mas no dia 12 de fevereiro, na cidade de Queimadas, Paraíba, aconteceu um dos crimes mais bárbaros de que eu já ouvi falar, tanto pelo próprio crime cometido quanto pelos motivos. Uma festa de aniversário foi invadida por um grupo de homens armados e encapuzados que, depois de roubarem algumas coisas da casa, escolheram cinco das sete mulheres que estavam na casa e as estupraram. Duas dessas mulheres acabaram sendo mortas pelos estupradores.

Dá pra ficar pior? Dá. O estupro havia sido combinado entre os encapuzados e os homens que estavam na festa. Todos eles sabiam o que ia acontecer ali, porque era um presente de aniversário para um dos homens que estava na festa, chamado Luciano, de 22 anos, que na confusão também cobriu o rosto e atacou as mulheres. As duas mulheres que foram poupadas eram as mulheres do aniversariante e do irmão deste. As duas mulheres que morreram foram as que reconheceram os estupradores, Michele Domingues da Silva, de 29 anos, e Isabela Pajussara Frazão Monteiro, de 27.

O pessoal do blog Blogueiras Feministas resolveram fazer uma blogagem coletiva sobre o caso:

“No dia 17 de fevereiro publique em seu blog um texto para que esse crime hediondo não seja esquecido. Quando a violência de gênero atinge níveis de filme de terror, não podemos deixar que ela nos tire a voz.”

Resolvi me juntar ao movimento, porque não entendo como um caso desses pode ser tão ignorado pelas pessoas. Na verdade tenho a sensação de que, se não fosse pela morte de duas das mulheres, o caso não teria chegado nem aos portais da internet. Como as pessoas podem baixar batido um caso desses? Não faz tanto tempo assim que os usuários do Facebook lotaram a rede social para linchar a mulher que matou um yorkshire a pancadas? Onde está a voz dessas pessoas para defender cinco mulheres que sofreram um dos piores crimes que qualquer mulher pode sofrer na vida? Mas as pessoas não falam de estupro. É tabu. Se ninguém falar, talvez dê para fingir que não existe.

Esse crime mostra bem a objetificação das mulheres na sociedade. Seu único objetivo de vida é satisfazer o desejo sexual masculino, se não ela é inútil. E porque fazer tanta tempestade por esse assunto, afinal, “estupro é apenas sexo”, não? “Estupra mas não mata”, como diria Maluf. E aposto como tem energúmenos por ai dando um jeito de culpar as mulheres nessa história, porque é mais fácil culpas as vítimas do que repensar valores de uma sociedade.

Homens teriam planejado estupro coletivo como presente de aniversário na PB

Estupros em festa com duas mortes na PB foram planejados, diz delegada

Sete suspeitos de estupro coletivo chegam a presídio em João Pessoa

Mas é preciso lembrar que existe sim uma violência de gênero, uma violência que é alimenta por visões enraizadas num mundo ainda machista e preconceituoso. Esse caso do estupro como presente de aniversário não é isolado, é apenas um reflexo desses valores. É impossível pensar que todos esses homens sofram uma patologia social para estuprar e matar mulheres que eles conheciam (e lembrando que a maior parte dos estupradores são conhecidos de suas vítimas), isso não é um problema mental, mas sim um problema cultural, de uma cultura distorcida, que é a nossa cultura e que é fortificado quando dizemos que “um estupro não é tudo isso”, “elas que pediram”, “essas mulheres deviam saber com quem estavam andando”.

“É uma violência gratuita. Aqui não tem dívida, não tem droga, não tem relação de roubo, nem assalto. Apenas eles queriam elas duas, mas como elas os reconheceram acabaram sendo mortas”, disse a delegada de Homicídios de Campina Grande, Cassandra Duarte.

Por isso decidi me juntar a blogagem coletiva com este post e deixar essa marca no blog. Porque este é um assunto que merece ser discutido, que não pode ser mais jogado para debaixo do tapete. Não deixem esse tipo de crime passar despercebido, não finjam que não existe e não culpem as vítimas, pois essa é a saída covarde. Vamos colocar isso nas rodas de discussão e repensar nossos valores. Porque uma sociedade que não pensa é uma sociedade morta.

PS: A fotógrafa  Grace Borwn criou um projeto fantástico sobre homens e mulheres vítimas de abuso sexual que me veio à memória quando fiquei sabendo sobre este caso.  Ela fotografa as vítimas segurando cartazes com frases dos agressores que marcaram o momento de violência que elas viveram. Deixo o vídeo de apresentação e o link para o site do projeto aqui para quem quiser dar uma olhada.

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Sobre yolanda

Jornalista, estudante de Ciências Sociais, viciada em tecnologia e novas mídias.

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  1. Nossa, Yo, muito bom esse seu post!!! eu tinha ouvido falar da notícia mas não sabia que os homens da festa sabiam!! Vc sabe, sou contra qualquer tipo de viol~encia, mas uma crueldade dessas deveria ser devolvida sim. Violência sexual não tem nada a ver com erotismo ou desejo, tem a ver com dominaçao, poder, e para Freud um complexo de pinto pequeno (ou vai ver eles mamaram de menos no peito da mãe). Esse tipo de coisa deveria sim ser mais comentada e mais divulgada. e uma surra nesses caras não faria mal a ninguém, de verdade. não há justificativa social, psicológica ou econômica sufiente para justificar uma coisa horrível dessas. Não acho outra explicação se não maldade pura!! Estupro é uma coisa que me deixa muito revoltada porque ninguém tem direito de subjulgar uma pessoa para se aproveitar dela por ela ser mais fraca fisicamente ou por estar armado. Não dá nem pra chamar esses caras de animais, seria ofender grande os pobres bichinhos…
    Muito bom o post, Dona Onça!!!

    • yolanda disse:

      Brigadão, Re. Todos eles sabiam o que ia acontecer na festa e ainda participaram da história, é algo nojento de se pensar. Dificil até acreditar que isso realmente aconteça. Assino embaixo nisso que você falou, estupro não tem nada a ver com erotismo, é muito mais ligado à tortura física e psicológica, tanto que é usado em guerras desde sempre.
      Apareça mais por aqui, Miss Fiore!

  2. Gicélia disse:

    Que orgulho de você, Yolanda, da sua sensibilidade e vontade de lutar contra tanta barbárie. O estupro da garotinha de 12 anos ocorrido nesta semana é mais um sinal de que tudo isso precisa ser tratado com seriedade por todos. Deve-se gritar por atitudes da sociedade contra tudo isso.
    Você tem feito sua parte, de forma inteligente. Lindo!!

    • yolanda disse:

      Valeu, Gi. Fiquei sabendo do estupro no ônibus pouco tempo depois de publicar este post e de vários outros casos que aconteceram essa semana. Vou continuar fazendo minha parte de todos os jeitos que eu puder.

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